Geraldo Leite - Sócio-diretor

Este foi um ano pra se guardar. O mercado publicitário pode até não ter ido tão bem, mas foi o ano em que o país saiu da casca, se mostrou ao mundo com mais responsabilidade, personalidade, deixando antever um lado singular, em que o “jeito” brasileiro, no bom sentido, foi respeitado, admirado. Parece (toc toc toc), será a nossa marca daqui pra frente. Isso se a gente não ficar se achando.
É oito e/ou oitenta
Todo o mundo já ouviu falar do grande Orlando Silva. Ele era conhecido como o cantor das multidões. Quando surgiu o Silvio Caldas, que não tinha todo aquele vozeirão, mas um estilo mais intimista, um radialista da época o chamou de o cantor das multidinhas. Acho que esse foi um belo ponto de avanço do mercado de mídia em 2009. Nós aprendemos que mídia se faz também com parcelas de maior afinidade; que a intensidade, por vezes, vale tanto ou mais que o já tradicional GRP. Mesmo que alternativas assim já existissem entre nós, a Internet fez com que tudo isso ficasse mais natural.
Só dá telinha
Contra todos os prognósticos da crítica especializada, a que vive fora do país, a telinha da TV segue levando a grande parcela do tutu do mercado. Se juntarmos TV Aberta e por Assinatura, chegamos a quase 65%. Nesses 35% restantes, mais um belo passo de avanço da Internet (agora pesquisada em sua totalidade) e do super resistente Rádio. Quem mais caiu foi a Mídia Impressa e a Mídia Exterior (com exceção da MDOOH que cresce a quase 70% ao ano).
Vivendo e aprendendo
Já faz anos e anos que o Zé Simão escreve diariamente na Folha de S. Paulo e é sempre um respiro em nossa labuta diária. Já existiram outras tentativas de levar esse conteúdo para outras mídias, mas sem sucesso. Agora, com a Band News FM, numa dobradinha com o Ricardo Boechat (e o Megale), se chegou a um modelo perfeito: ele fala, comenta, repete, dá tempo para as risadas e não mais só as dele. É impressionante o que um momento especial no Rádio pode proporcionar. Experimente estar no carro por volta das 15 pras 9 da manhã (tem outros “repetecos” no dia) e olhar em volta quando ele conta as piadas. Você vai notar que não está sozinho e que tem muito mais gente como você que vai começar o dia mais feliz.
Talentos da maturidade
Tem mídias e programas que precisam de um tempo não só para melhor construir sua linguagem ou produto, como também para serem melhor percebidos. Destaco três bons exemplos neste ano. Primeiro, o Caderno Paladar de O Estado de S. Paulo que toda a quinta feira abriu um novo segmento de interesse, tanto de leitores, quanto de anunciantes, o que permitiu desenvolver novos produtos, formatos e eventos. Outro é a Revista Serafina (dominical e mensal da Folha de S. Paulo), que quebra os padrões das tradicionais e aguadas “Sunday magazines” de até então, com um tratamento gráfico e editorial mais moderno e inquieto. Por fim, a maturidade e inovação do programa CQC da Bandeirantes, na perfeita integração do conteúdo editorial refletido nos apresentadores e repórteres, com a parte publicitária de marcas que querem se identificar justamente com o caráter crítico e irônico do programa.
Injeção na veia (jornalística)
Este também foi o ano em que o mercado melhor enxergou a importância, vitalidade e diversidade que os jornais gratuitos oferecem. Eles já são uma boa alternativa em alguns mercados, primando pela flexibilidade criativa e de distribuição, numa eficiência muito grande quando casado com ações promocionais. Para mim, o ponto mais importante é o que eles já estão contribuindo para o aumento e o rejuvenescimento do hábito de leitura.
Brasil sil sil
Tem uma atitude que considero importante e exemplar, ainda mais vinda do governo federal. A Secom decidiu adotar um modelo de distribuição de verba muito mais ampla, espalhada pelo país, procurando chegar a todos os municípios e veículos locais – o que tende a incluir mais jornais e emissoras de rádios. Essa é uma grande mudança de paradigma, uma interiorização de fato do investimento em mídia que muda a regra padrão, fazendo todo o mercado se adaptar para tanto. Isso significa que talentos ou empreendimentos locais podem ser melhor enxergados e valorizados. Implica ainda que o nosso mercado tradicional de mídia tem que saber avançar junto, explorando formas de medir e apurar todas as informações necessárias, valorizando os eventos regionais e não mais se limitando ao papai e mamãe dos maiores mercados brasileiros.
A conferir em 2010
A recente briga pela audiência do domingo nas TVs mudou algo do padrão de verba do mercado? A reação do Jornais, via Murdoch, de se opor ao uso do conteúdo deles no Google fez os Jornais mudarem para melhor ou para pior? Há espaço para uma consolidação dos jornais, rádios e editoras em grupos mais fortes? Depois da Globo, outro Prêmios Emmy virão para o Brasil? A banda larga será mesmo impulsionada no país através de usos em escolas? Crescerá o share da TV Aberta mais uma vez neste ano de Copa? ... Enfim, bom ano a todos e beijos nas crianças.
imagem: gaspi














